quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mais menino óia!

Com 78 anos, Nega ainda faz seus famosos doces

Há dias eu vinha tentando marcar um encontro com Dona Benedita, mas ela só ria e adiava. - Deixe para amanhã, me deixe arrumar os cabelos. A sua preocupação era sair bonita na foto. Eita mulher vaidosa! E seguia o seu caminho, ora para a feira, ora para arriscar a sorte no jogo do bicho ou na Loteria Federal. Nesse meio tempo, já a encontrei várias vezes, subindo e descendo ruas, mas sem sucesso para conseguir agendar uma entrevista. Até por São Paulo ela já esteve esses dias. Enfim, após o carnaval, em plena quarta-feira de cinzas, eu pude sentar com ela e bater um bom papo. – Para que é isso mesmo? Ela indagava! – Hoje você me pegou numa veia boa! E eu comemorei: - Oba, então vamos lá! 



Filha de mãe solteira, Nega do Doce, como é conhecida, carrega no olhar uma vida cheia de sofrimento, a mesma insiste em dizer que aguentou muito e labutou por anos para ajudar a sustentar a família, mas que nunca negou um sorriso a ninguém, sempre foi alegre e prestativa. Ela é “gente boa”, podemos assim defini-la, como se diz na linguagem popular. Perto de completar 80 anos, ela revela coisas da sua vida ‘nada mole’ de lavadeira, agricultora, feirante, doceira e, agora, aposentada. Numa conversa de mais de três horas, finalizada com alguns copos de cerveja, Nega conta suas histórias com o mesmo prazer e dor da época em que as viveu. - São os meus momentos. 



Nasceu Benedita Rodrigues do Nascimento, mas adotou o sobrenome do primeiro marido, Augusto de Oliveira, conhecido como Augusto das Colheres, após um casamento ‘rabo de foguete’. Nega do Doce solta gaitadas ao lembrar-se do caso, “tive que fugir por causa do ciúme dele”. Segundo ela, o tal Augusto, que era um capanga de políticos, “não funcionava direito” e “não dava conta do recado”. Como bem diz o ditado popular, para bom entendedor, meia palavra basta. Nega fala o que quer, não tem papas na língua, é uma pena que sua memória não a deixa contar tudo que sabe, mas o resto, o que lembra, ela não deixa passar nada, fala de tudo sem medo e sem dó, tornando-se numa figura hilariante e ímpar da pequena cidade de Curaçá, na Bahia. 

Nega do Doce é a filha do meio de Exzercina Rodrigues do Nascimento, a primeira doceira da cidade, nasceu em três de abril de 1934, conta que a mãe pediu a benção a Nossa Senhora para ela não nascer no dia primeiro, no dia da mentira. Já nasceu “neguinha”, apelido dado pelo seu irmão mais velho, José Rodrigues do Nascimento, o Zé Padre. Dona Exzercina do Doce teve uma terceira filha, Nelza Marilene, e, ainda, ajudou, juntamente com Nega, a criar uma criança, a recém-nascida Ana Maria da Silva, na época com apenas dois meses, hoje com 50 anos de idade. 

Nega não estudou muito, na sua identidade ela aparece com não alfabetizada, mas com esforço adquiriu uma habilidade em fazer conta na cabeça. – E sou boa de conta! [riso incontido] Começou a negociar cedo, além de ajudar sua mãe fazer doces, também lavava roupas. Por muitos anos foi comerciante na feira. – Eu vendia mingau, bolos, café, petas e verduras. Seus olhos pareciam mergulhar na saudade quando Nega contava suas histórias, mesmo tendo sofrido bastante, aqueles tempos ainda trazem boas recordações. 

E dizia, aliás, insistia. - Eu nunca tive sorte com homens. Nega do Doce lamenta não ter dado certo nos relacionamentos, todos relâmpagos, mas em nenhum momento sente falta de um companheiro. Aliás, ela morre de rir quando o assunto é homem. O primeiro marido, único com casamento oficializado, com o tal Augusto das Colheres, durou pouco mais de um mês; o segundo casório, com José Romão, que trabalhava na empresa São Luiz, durou cerca de dois anos; e o terceiro e último com quem se amancebou, Nega nem lembra o tempo que durou, mas não deve ter sido essas coisas toda não, pois ela sequer lembra mais o nome do dito cujo. - Mas Nega, como é que você esquece o nome de um homem com quem dormiu? [Risos e gargalhadas] - Sei lá! Ela é uma figura. O que ela mais lembra é que ele levou de si, ‘sem avisar’, sua combi de trabalho para Petrolina, em Pernambuco. – Eu mandei buscar, mais menino óia! 

Dona Benedita, quer dizer, Dona Nega, além de ser essa pessoa maravilhosa, marcada por histórias, ficou conhecida pelos seus doces. – Amor e carinho é a minha receita. Quantos não já provaram do seu doce de leite ou aquela cocada enrolada em papel madeira, ou aquele doce em calda que enche a boca de água. Nega sempre ajudou sua mãe a produzir os doces, mesmo realizando atividades paralelas, ela sabia conciliar as coisas, era uma empreendedora, mesmo sem saber. – Já ganhei muito dinheiro. Depois que sua mãe cansou da quentura do fogo, Nega assumiu as tarefas. 

No auge do seu comercio doceiro, Nega revela um acontecido. Vizinhos da sua casa resolveram colocar uma sorveteria. Então, naturalmente, o público consumidor seria dividido. Mas Dona Exzercina e Nega não estavam nem aí para isso, quando o proprietário dos picolés, na época era uma novidade, soltou uma brincadeira com sua mãe. – Eita velha, o doce morreu. E mãe de Nega, toda religiosa, disse: - Morreu não que Deus não dá a cruz a uma pessoa só. Certo que Deus não deixaria o pior acontecer, a velha parecia profetizar, pois a sorveteria não existe mais, quem falou a pérola já partiu para outro mundo, mas os doces ainda continuam ‘vivos’. 

Se tinha (e tem!) uma coisa que tira Nega do sério é perguntar se tem doce de mucunã. Aí ela fica brava. Mas curioso para saber o porquê disso, comecei a instigar e ela, naturalmente, contou como surgiu essa história [mudou logo o semblante]. – Certa vez, tinha na porta de nossa casa, um feixe de lenha, umas frades e algumas mucunãs. Aí passou um ‘engraçadinho’ e perguntou para minha mãe se as mucunãs eram para fazer doce. E isso pegou. Dona Exzercina excomungava quem fosse, bastava fazer tal pergunta. Nega já prendeu várias crianças, a mando de adultos, que se arriscavam a ‘comprar’ o tal doce de mucunã. 

- E não acaba mais não! Preciso ir à Lotérica fazer o jogo de Dione. Calma Nega, só mais um pouco, me conte mais. Já estava inquieta. – Amanhã a gente continua, ele me pedia! Depois disso, Nega resolveu concluir logo. E começou a lembrar um pouco da sua juventude e revelar o quanto gostava de dançar e flertar. - Não namorava muito, mas namorava. Quem manda ser bom! [caímos na risada]. Troca Tapas, Estrela do Norte e a Sociedade dos Vaqueiros eram os locais que ela freqüentava por ouvir o som da sanfona de Izaltino e Bombone. Nega não tem jeito. Para quem não tinha mais nada a revelar, ainda contou foi coisas. 

Do pouco tempo que estudou, Nega lembra-se da brincadeira em soletrar as palavras. O professor Vivaldo Xavier perguntava: be a bá, de a dá, le o ló. Nega imediatamente escancarava. – É aquilo que tem embaixo do jegue e que balança. Nega do Doce é assim, fala mesmo! Ela é bem divertida e gosta de compartilhar sua alegria com os amigos, mas não esconde o cansaço. Afinal de contas, já são 78 anos nas coxas. Ela agora passa um bom tempo da sua aposentaria viajando pelas bandas de São Paulo. 

E quem pensar que os doces estão ‘morrendo’, se engana. Como a sua mãe, Nega também adotou uma criança, a quem deu o mesmo nome de sua irmã que faleceu tempos atrás. - É ela agora a responsável pela produção dos doces, mas ainda faço doce em calda de vez em quando. É uma geração de doceiras, uma receita quase centenária que adoça a boca de muitas pessoas. 

- Agora terminou né?! Agora sim! Se faltar algo lhe procuro novamente. – Pode ser amanhã se você quiser. Nega do Doce sempre arruma um tempo para atender as pessoas. Percebi a agonia dela para fazer seus afazeres, ainda assim, pedi permissão para ler os dois primeiros parágrafos, pré-produzidos, durante a entrevista. Com atenção, ela escuta, concorda e ri sem parar. – Mais menino óia! Esse era o sinal de afirmação de Nega que eu precisava. Ela, por si só, é um doce de pessoa.